Projeto Lucinda

A comunidade surda de Umuarama - PaRaná

Umuarama é uma cidade localizada na região noroeste do estado do Paraná e tem aproximadamente 120 mil habitantes.

Geolozalização comunidade Umuarama

A história da comunidade surda de Umuarama se confunde com a criação da ASSUMU – Associação de Assistências aos Surdos de Umuarama, fundada em 1974, como iniciativa dos missionários Chari e John, vindos da Flórida, e de Maria Aparecida Françolin. 

A partir da criação da associação, foi inaugurada a Escola de Educação Bilíngue Anne Sullivan, que atende, atualmente, alunos surdos (alguns com múltiplas deficiências), da cidade de Umuarama e região, nos níveis de Educação Infantil, Ensino Fundamental I (anos iniciais) e EJA fase I, na modalidade de Educação Especial. A escola também inclui o Centro Especializado Área da Surdocegueira de Umuarama. A história contada por todos relata que o casal americano, que tinha uma filha surda, usava muitos sinais da ASL.

O que podemos perceber, na visita à cidade, é que os surdos que viviam em Umuarama e nas cidades da redondeza viviam isolados de outros surdos, convivendo apenas com ouvintes não sinalizantes, e usavam provavelmente o que na literatura se convencionou chamar de sinais caseiros. 

Como os surdos não tinham interação prévia entre si, o contato que se deu por conta da criação da associação deve ter sido marcado por estranhamento. Uma das nossas informantes, Loraine, relata que sentia muita vergonha e que nunca tinha visto, antes de chegar na associação outras crianças surdas sinalizando. Compreendemos que essa timidez e a falta de uma língua de sinais comunitária compartilhada pelos surdos que se encontraram em Umuarama pode ter dado ao casal americano, acostumados com interações na comunidade surda americana, onde a língua de sinais americana (ASL) é proficientemente usada pelos surdos a impressão de que os surdos locais tinham um modo de comunicação inferior. Desse modo, o casal passou a ensinar da ASL aos surdos e esses sinais se difundiram na comunidade. O acesso posterior a livros, realização de formação de professores e o contato com outros surdos fez com que alguns surdos percebessem que usavam sinais diferentes que esses sinais não eram da libras. Havia uma tendência, principalmente entre as professoras e professores da escola Anne Sullivan, em substituir esses sinais locais, que remetem à ASL, mas muitos continuam a ser usados na comunidade surda local. Os participantes mais velhos conseguem identificar esses sinais, aos quais se referem como “sinais antigos”. Participantes, mais jovens, identificados como da 2ª. e 3ª. geração de surdos da cidade, também identificam esses sinais e reconhecem que são sinais antigos, mas ainda usados. Quando solicitado, são capazes de produzir essa variação, como em sinais para FLOR, MACARRÃO, alguns animais, verbo FICAR, palavra IGUAL, entre outros. As participantes Maria Alice e Ester (a mais nova, de 14 anos) não sabem dessa relação da Libras com ASL em Umuarama e não são capazes de identificar esses sinais. Nas gravações, no entanto, Ester produz pelo menos o sinal para o verbo FICAR da ASL. A participante Maria Alice ficou surda já com 9 anos e aprendeu libras na escola e não é capaz de identificar sinais antigos usados na cidade.

Nosso contato com a comunidade surda de Umuarama se deu através da aluna Nayane Costardi da UFPR, nascida e criada na cidade. O trabalho de campo foi realizado em setembro de 2023 e permitiu a coleta de dados de 9 pessoas surdas de 3 gerações diferentes. Nosso banco de dados, portanto, é composto por dados de 3 surdos com idade superior a 50 anos, e representam os primeiros alunos da escola de surdos de Umuarama. Eles se lembram bem da história da criação da associação e tiveram contato com o casal americano. Esse grupo tem consciência do uso de sinais da ASL, aos quais se referem como sinais antigos. A segunda geração de surdos foi representada por duas irmãs surdas. Uma delas é, inclusive, professora na escola Anne Sullivan. A terceira geração de surdos foi representada por 4 surdos. A maioria deles não está atenta ao fato de que a sinalização dos surdos de Umuarama tem traços peculiares associados ao uso de sinais da ASL. Todavia, eles reconhecem muitos sinais que consideram como “regionais”. Uma diferença importante em relação aos surdos da terceira geração e os demais é que são todos oralizados. A maioria deles, com exceção de uma surda que perdeu a audição já com 10 anos de idade, demonstra ter preferência na comunicação sinalizada, ainda que se sintam confortáveis também oralizando. É possível perceber que na comunicação com ouvintes, ainda que sinalizantes, eles automaticamente se expressam de modo bimodal, sinalizando e oralizando.

Abaixo, reproduzimos algumas fotos feitas durante o trabalho de campo:

Narrativas Pessoais

Abaixo disponibilizamos duas narrativas pessoais, com legenda em português e tradução para libras.

O vídeo anotado pode ser aberto no ELAN usando o arquivo eaf.

Glossário

É possível consultar abaixo uma amostra do vocabulário da língua de sinais da comunidade de Umuarama. Essa lista foi elaborada a partir de uma oficina organizada pelas surdas Nádia e Rúbia, por ocasião do Seminário de Conclusão do Projeto Lucinda, realizado em dezembro de 2024.

Acordar
Açucar
Água
Ajudar
Andar
Animal
Aprender
Aqui
Arroz
Árvore
Avião
Banheiro
Barbear
Batizar
Bebê
Bicicleta
Boi / Vaca
Bom
Borracha
Carta
Cachaça
Cachorro
Cantar / Padre
Carne
Casa
Casar
Cavalo
Chorar
Chuva
Cobra
Computador
Construir
Correr
Cozinha
Cozinhar / Ferver
Dançar
Desenhar
Dinheiro
Doença
Dúvida
Elétrica
Emprestar
Feliz
Ficar
Flor
Folha
Formiga
Galinha
Gay
Gat@ (gato / gata)
Gême@ (gemeo / Gemea)
Grávida
Homem
Ideia
Igual
Ilha
Janela
Lembrar
Lua
Macarrão
Madrugada
Manhã
Maquiar
Medo
Melancia
Menstruação
Mentir
Morrer
Mulher
Não
Não Gostar
Noite
Palavra
Pássaro
Pobre
Polícia
Por que
Porc@ (porco / porca)
Precisar
Procurar
Professor
Queijo
Quiser
Rat@ (rato / rata)
Repolho
Reunião
Rio
Ruim
Se@ (seu / sua)
Sentir
Sol
Tarde
Televisão
Tudo